The S-Word

postado porJames Allen
06/11/2013

Um dos desafios que enfrentamos em nosso dia a dia de trabalho no Lab é esclarecer, da forma mais simples, o significado de certos termos técnicos. Existe um grande risco que o uso de uma linguagem demasiada técnica ou pouco clara possa assustar ou distanciar as pessoas. Em inglês quando queremos evitar o uso de uma obscenidade ou de uma palavra descabida, pegamos a primeira letra da palavra e usamos o ‘X-Word’.  A ‘S-Word’ – sustainability – é uma palavra que confunde e assusta em igual medida. Faça um teste e tente explicar a uma criança de oito anos o que significado da palavra ‘sustentabilidade’.

Parece contraditório que uma palavra divulgada em tantos espaços distintos – propagandas, políticas públicas, reuniões de conselho – esteja tão pouco compreendida, ou que por outro lado, existam tantas interpretações possíveis para tal palavra. É claro que isso pode ser considerado como algo positivo e importante pois a abertura para interpretações múltiplas ajuda em mobilizar pessoas e organizações distintas de formas diversas. Por outro lado tal abundância de interpretações pode assustar, ou porque as  pessoas têm medo de ‘green washing’ (um excesso de informações exageradas e/ou falsas sobre ações ambientais), por acharem que é apenas uma estratégia de marketing, ou ainda porque é visto como algo muito técnico e difícil de  entender.

Esse ano, mudamos o nome da nossa consultoria, excluímos a ‘S-Word’ e nos renomeamos ‘Lab’ em vez de Sustainability Lab. Fizemos isso por vários motivos. Primeiramente queríamos dar uma cara mais brasileira à marca, pois somos uma empresa brasileira com atuação principalmente no Brasil e na América Latina, e a palavra ‘Sustainability’ já é uma palavra difícil, inclusive para quem fala inglês. Em segundo lugar, a palavra sustentabilidade é, de certa forma, um termo que já esteve no auge, atualmente entretanto, existem outras questões de maior peso – ética, harmonia, valor(es) – que no devido tempo, substituirão a S-Word. E em terceiro lugar optamos por retirar a palavra ‘Sustainability’ de nossa marca porque acreditamos que, no longo prazo, a sustentabilidade deverá permear tudo que uma empresa faz, ao invés de ser algo a parte. É por isso que algumas empresas, como Natura, estão em processo de desmonte de seus departamentos de sustentabilidade para que o tema se torne uma questão transversal.

Continuamos com o ‘Lab’ porque cada dia experimentamos novos conceitos e novos significados e porque o caminho para um futuro mais sustentável ainda não está bem mapeado. “Mas o que significa tudo isso?” como perguntou Austin Powers; o que significa ser sustentável? Parece-me importante que a palavra ‘sustentabilidade’ não tenha uma única definição e que exista uma certa flexibilidade no seu uso, conforme o contexto em que aparece, a pessoa ou  organização que dela se utilizam. Ainda assim, permitam-me compartilhar algumas reflexões pessoais sobre como minha interpretação da palavra mudou desde que comecei a brincar com o conceito.

Num primeiro momento, sustentabilidade tem a ver com o uso e a distribuição dos recursos naturais finitos. Ao longo dos anos a humanidade mostrou uma capacidade impressionante de aproveitar dos recursos naturais existentes em nosso planeta. O computador no qual eu escrevo essas palavras, por exemplo, contem aço, vidro, areia de sílica, minério de ferro, ouro, bauxita e muitas outras matérias primas.  Energia é usada para transformar essas matérias em outras – o alumínio, por exemplo, é um subproduto da bauxita – além de grandes quantidades de água em processos de limpeza e resfriamento. Um estudo de 2004 das Nações Unidas estimou que para montar um computador, precisa-se de 1.500 litros de água, 240 kg de combustíveis fósseis e 22 kg de matériais químicos, dando um total de 1,8 toneladas de matérias primas, o peso de um carro de porte médio.

Como há uma oferta limitada dessas matérias primas, temos que questionar como conseguiremos sustentar no longo prazo a demanda por elas, gerada pelo crescimento contínuo do consumo no mundo inteiro. O preço que pagamos por estas matérias reflete mesmo o seu verdadeiro custo ao planeta? O seu uso e a sua distribuição são feitos de forma equitativa, não apenas entre pessoas e países, mas entre diferentes gerações? Temos o direito de usufruir de recursos limitados no presente se isso significa que nossos netos terão que viver sem os mesmos? A sustentabilidade, então, se refere ao desfio de como entender, proteger, usar e compartilhar recursos de forma equitativa ao redor do planeta e entre gerações.

Se estivermos de acordo que uma distribuição mais equitativa de recursos é um objetivo nobre – e existe cada vez mais evidências que demostram que sociedades mais equitativas são mais felizes e mais saudáveis – daí temos que entender melhor como realizar esse sonho de reduzir as desigualdades. No Lab, acreditamos que quando um indivíduo ou uma organização consigue construir, através de diálogo e intercâmbio, relações mais equitativas com os atores ao seu redor – seus stakeholders – este indivíduo terá um maior sucesso em alcançar seus objetivos. Uma organização não existe sozinha; para realizar sua missão, ela depende de várias pessoas e instituições, como fornecedores, clientes, comunidades, funcionários e governo. A capacidade de uma organização de se sustentar depende da sua capacidade de interagir e se conectar com esses diferentes grupos. Essas conexões se baseiam em questões ‘materiais’, recursos e processos, que estão num estado de fluxo constante, o que significa que, para perdurar, uma organização precisa saber se adaptar.

Partindo deste ponto de vista, a sustentabilidade diz respeito à interdependência e à interconectividade de tudo no planeta. Para melhor ilustrar a ideia, tomo como exemplo o corpo humano. Nosso corpo possui diversos órgãos que se comunicam uns com os outros: o pâncreas, por exemplo, secreta no corpo insulina para manter a concentração certa de glicose; se houver excesso de insulina, ela é guardada no fígado e quando chega a hora de liberar mais insulina, o pâncreas se comunica com o fígado para ir trabalhar, num espécie de mecanismo de feedback que garante a manutenção do sistema como um todo. A comunicação e a cooperação em sistemas naturais evoluíram ao longo de milhares de anos e funcionam muito bem; entre indivíduos e entre organizações, essas habilidades ainda não estão tão bem desenvolvidas, mas nossa capacidade de dialogar, compartilhar necessidades, escutar e responder às visões dos demais (sejam pessoas ou organizações) é um componente essencial para garantir nossa longevidade, nossa sustentabilidade.

Essa interconectividade é relevante em contextos muito diversos. Seres humanos, dependem de outros seres humanos para existir; um país existe como resultado dos seus relacionamentos com demais países; e como já tínhamos visto o conceito é relevante para organizações e para os órgãos no corpo humano. Essa nossa interdependência como seres humanos é uma questão extremamente filosófica. Martin Heidegger a chamou de “Mitsein”, ou “ser-com”. De acordo com Heidegger, o significado de ser humano tem a ver com o seu pertencimento a uma comunidade capaz de se comunicar. Quando investigamos a mais fundo, começamos a perceber uma situação na qual o indivíduo e o tudo estão intimamente ligados: o universo e o indivíduo são inseparáveis, o macrocosmo e o microcosmo. É nesse ponto que, a meu ver, começamos a apreciar a essência de sustentabilidade, um conceito quase espiritual que já foi abordado de uma forma ou outra por todas as grandes religiões. Como depois traduzimos isso para o mundo real, para nossas vidas, famílias, empresas e  países, é o desafio gostoso que temos em frente.

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